January 03
A última postagem rendeu vários comentários, inclusive de ex-alunos meus. Foi então que eu lembrei de um outro texto, guardado aqui entre os arquivos do computador, um texto que já usei inclusive em sala de aula, que trata da diferença entre desejo e vontade.
É difícil mesmo lidar com nossos desejos – que são paixões. Mas eles estão aí, em nós. No entanto, esta é uma outra leitura, diferente daquela da última postagem. Posso dizer que eu mesmo me via às voltas com meus próprios desejos, tentando aprender a lidar com eles.
A questão, a que retornaremos aqui, é a da “moral”, que é outra força que opera em nós. Para quem lembrar do Doutor Freud, estamos falando dos desejos enquanto as forças do Id; a moral, enquanto a pressão do Superego; e a vontade, como expressão do Ego.
Nós confundimos o que é o desejo e o que é a vontade: usamos uma palavra e a outra para dizer a mesma coisa. Mas não é assim que é.
Repare: nós não escolhemos nosso desejo. Ele surge, sabe-se lá de onde é que ele vem, e toma conta de nós. O desejo é assim. É um afeto, porque o desejo nos afeta, chega sem pedir licença, nos invade. Não é assim que é? O desejo é uma paixão. E paixão, não é só quando estamos apaixonados, não. Os apaixonados são afetados por uma paixão, a paixão amorosa, a paixão romântica… Mas o ódio e o medo também são paixões. Nós é que nos acostumamos a chamar apenas o nosso amor de paixão, o que é muito errado. Toda paixão é um afeto. São todos do mesmo jeito: o amor e o ódio, o medo, e o desejo, porque nos afetam, chegam sem pedir licença.
Mas a vontade, não. Ela não é um afeto: ela é uma escolha. É quando, antes de agir, paramos para pensar e medir as conseqüências de nossos atos. A vontade é acompanhada da razão, que é a capacidade, que apenas nós humanos temos, de parar e pensar, calcular, medir conseqüências, e só então escolher.
Se agimos apenas movidos por nossos desejos, não somos diferentes de qualquer animal, que também desejam, agem por instintos, por impulsos. Quando agimos apenas movidos pelo desejo e pelas paixões, não há escolha possível. E desejamos coisas que até consideramos serem contra a moral. O desejo não tem moral.
No entanto, de nós, humanos, se espera a capacidade de frear um tanto nosso desejo, nossas paixões, tudo o quanto nos afete – para que possamos parar, pensar, escolher e agir. É assim que é. É nesta escolha que reside a moralidade. A vontade é o eixo em torno do qual gira a moral.