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    December 31

    2009: Um dia após o outro!

    Um dia depois do outro. Considerando assim, a virada de ano não tem nada de especial. “Passar de ano”, de 31 de dezembro a 1º de janeiro. Um ano depois do outro. – Mas não é só isso. Os finais de ano ensejam uma avaliação do ano que se encerra e a proximidade de um novo ano traz consigo alguma esperança – ou seja, o simples desejo de que as coisas sejam melhores no próximo ano, que ele traga boas novas. 

    Um dia depois do outro. Não há nada de mágico nas viradas de ano. Não é sequer razoável que pensemos que por si só a passagem de ano traga as mudanças que desejamos, sobretudo se pesarmos bem a avaliação do ano que passou e as perspectivas e desdobramentos que ele nos apresenta, como um desenrolar das circunstâncias tão adversas em que vivemos. No entanto, deixemos um pouco a razão de lado e concentremo-nos em nossos desejos.

    Pois o desejo é uma força poderosa – ela não faz mágicas, não. Porém, ele é forte à medida em que nos move e nos faz mover. É esta força que reconhecemos pelo nome de esperança. Não é o ano-novo que nos traz boas novas, mas o modo com que lidamos com nossos desejos, de como investiremos em nossas ações para que eles se realizem, um dia depois do outro. Esperar que, como em um passe de mágica, o ano-novo seja também um ano-bom é entregar-se a emoções um tanto ingênuas. Antes, o ano-bom depende de um esforço decidido e engajado, ou então é contar com os desígnios da sorte.

    O desejo é uma força poderosa, nos move. Contudo, não temos controle sobre nossos desejos – isto é, a razão não os controla. Por isso identificamos nosso desejo ao que há de irracional, às paixões – ou páthos, na língua grega. A etimologia nos dá a pensar: esperar – esta esperança que se confunde com a sorte e com a magia – tem a ver com um estado passivo e de uma “paciência passiva” (perdoem-me a redundância), oposto ao estado de quem age. E assim nos entregamos ao clima emotivo da virada de ano que a muitos contamina (como doença, uma patologia).

    O desejo, no entanto, é parte de nós – e saudável, quando aprendemos a lidar com ele, com moderação, prudência, como nos ensina Aristóteles. Saudável quando desperta em nós a força para uma ação deliberada, em vista de uma finalidade: a felicidade, que não deve ser interpretada como a mera realização de nossos desejos, e do prazer que disto podemos esperar, mas da atuação daquilo que em nós há de mais humano.

    Concentremo-nos em nossos desejos para o ano-novo. Afinal, o que queremos? E ao querer, o que fazer? Que este querer seja a força motora para realização de nossos projetos. Não há mágica, nem sorte – ou, se há, nem sempre poderemos contar com elas. O desejo de um bom-ano-novo transforma-se em força para a ação – ou práxis, na língua grega. Feliz práxis nova! Um dia após o outro.