Foi em uma brochurinha que encontrei os poemas que agora (e de pouco em pouco) trago a público. Do autor não tenho grande notícia, apenas que era jovem e, como jovem, pouco vivido nas histórias de amor que, entretanto, é seu tema.
Num poema, nada aparece ao acaso. Quem os escreve, supomos que escolheu bem as palavras, que considerou cada uma delas antes de lançá-las no papel. As imagens que o poema mobiliza, também: foi o poeta quem as desenhou.
A medida em que o poeta de primeiros versos vá tomando consciência das escolhas que faz (pois às vezes serão escolhas mais ou menos conscientes, mais ou menos inconscientes), bem como da escolha das imagens que desenha, vai possibilitando a si mesmo maior domínio da linguagem, como de si mesmo.
Ao crítico, pouco importa se o poeta pensou tudo aquilo que ele encontra no poema. É o crítico que nos chama a atenção para as várias leituras possíveis, ainda quando o poema é tão somente um rascunho, sejam pelos versos demasiadamente improvisados ou pelos desenhos apenas em rabisco.
O poeta ingênuo pensa que os versos saem como por inspiração. O crítico sabe que um poema, se inspirado ou não, requer trabalho, reflexão e escolhas. Se um arranca da subjetividade uns versos, o outro encontra neles a objetivação do que se passava na subjetividade.
De algumas poucas palavras me valho aqui pois para tentar posicionar o leitor quando da leitura desses poeminhas, todos eles bastante econômicos nas palavras, curtíssimos, muitos de apenas dois ou três versos, sem rima necessária, tampouco métrica, versos livres como bem comporta a juventude do autor.
São poeminhas que lembram a ‘fórmula da anedota’. Por vezes é por um mero trocadilho – os melhores, são de efeito preciso, pela interversão que o verso causa, embora o conjunto dos poemas seja irregular neste efeito, o que é desculpável, obviamente, pela mocidade do autor. Também pela interversão vem a ironia, da qual o autor tira algum proveito.
Esta pequena antologia vem sob o nome de Interditos, que nos dá um pouco o tom da coisa. “Amores ditos entre dois”, mas também e mais propriamente “amores interditados” – o que por si só já é uma ironia. Amores que por algum motivo qualquer não se realizam, ou foi exatamente por falta de motivo é que não se realizam. Num caso, o que move leva à direção diversa – e “diverte”; no outro, não há movimento que faça vingar o desejo que, não obstante, pulsa.
Não esperem, pois, poemas de amor cheios de fantasias que o adornem, nem alegres versos para citações de felicitação. Pelo contrário, os versos são singelos, tensos e mesmo de uma tristeza doída, causada pelos desencontros que a experiência amorosa pode proporcionar.
Talvez o leitor se reconheça nos versos – ou talvez fique condoído do seu autor, quando se tem em vista de que é exatamente disto que se trata, uma relação a dois que não se cumpriu. Contudo, tudo isto nos será insondável: não saberemos ao certo nem como, nem porque das coisas não terem chegado a bom termo, pois um poema não é uma reportagem.
No entanto, nestes desencontros, poderíamos imaginar, em vista das circunstâncias históricas em que vivemos, que este “outro interditado” a que os versos miram não seja necessariamente “alguém”, mas um “certo algo”, desejável por si mesmo, como a “transformação da ordem vigente no mundo”, a “liberdade”, a “revolução”, seja lá o que for, que se espera sem esperanças, pois parece demasiadamente afastada do horizonte histórico em que se nos meteram nestes tempos bicudos:
TEMPOS BICUDOS
Minha esperança já tem nome
de saudade...
Lidos assim, os versos falam de nosso tempo de desesperança, de perspectivas históricas ralas e apequenadas – traduzidas nas relações interpessoais ou contaminando-as. O que poderia ser lido como particular (“as desventuras do seu autor”) ganha contornos de algo mais geral e, porque não dizê-lo, universal: “o amor que não realizamos, que não se realiza e que não nos deixam realizar”, e que ficou na saudade.
Um poema carrega em si a suas circunstâncias. Com efeito, a se pensar em um jovem, é uma nostalgia do tempo não vivido – outro tempo em que se cria na “revolução” ou o que o valha, quando se cria que o mundo estava em vias de mudança. Penso como caso exemplar o ano de 1968 – e tudo o que ele representou para a mocidade da época, e o que de 68 ficou como mito. Uma explosão de desejo, e que o “amor” – agora, como uma potência de fazer e criar, como a pulsão erótica de que Freud concebia – movia e transformava, até que foi censurado, aprisionado, privatizado: um “amor privado”.
Essas linhas sugerem pois uma outra leitura dos poemas – não o amor como questão privada, particular, mas que se inscreve num espaço público. É tanta a interdição que são raras as vezes que o amor é “nomeado” – um amor sem nome, e porque sem nome, também sem gênero:
GRAMÁTICAS
O meu amor não concorda
em gênero, número e grau.
Pode-se imaginar uma correlação entre as duas leituras: foi também nos anos de rebeldia juvenil, ou, para ser mais exato, na recusa dos jovens a assumir os modos de vida do que é velho e ao sabor das convenções sociais e tradicionais. No rasto desta recusa veio a chamada “revolução sexual”, o movimento de emancipação das mulheres e de visibilidade e reconhecimento das outras orientações e opções sexuais, que desenhavam assim um outro mundo possível, em que o desejo fosse desinterditado.
Admitamos contudo que não é sempre esse o tom dos versos; há outros que sugerem um “outro interditado” mais definido – mais particular, portanto; com efeito, a experiência vivida que se soma (ou somatiza) a esta impressão (objetiva) de um mundo ressentido, em que o amor e o desejo não chegam a bom termo.
O leitor poderá, deste modo, se aproximar mais do tema e se apropriar dele, mas afastando-se do seu autor que, anônimo e oculto, interdita-se a si mesmo, como mais uma estratégia diversionista. Ironia de quem se revela ao ocultar-se, se esconde ao revelar-se:
FIM DE PAPO
Adoro os mistérios deste mundo.
Então, emudeço.
E fim de papo.