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4月4日 [leia o prefácio aos Interditos] GRAMÁTICAS O meu amor não concorda em gênero, número e grau. HUMANITISMO* A propósito do meu amor, foi plantar batatas. BAZÓFIAS Muitos amores eu tenho — não recordo onde os perdi. * Depois de Machado de Assis. [leia o prefácio aos Interditos] COGITO No fundo, no fundo, sou superficial. BEM ENTENDIDO Não sou joguete para brincar… Foi então que se riu de mim. PRAGMATISMO Nada mais fácil do que achar um grande amor num lugar comum. 3月30日 [leia o prefácio aos Interditos] LIÇÃO DE ÁLGEBRA Meia verdade com meia verdade não somam uma verdade inteira. HONORIS CAUSA Sinceramente sua franqueza me dói. ESCOLHA A Maria, certamente… mas não amei. 3月29日 [leia o prefácio aos Interditos] WORKAHOLIC Queria viver comigo nas horas vagas. INSISTÊNCIA Disse que me amava ainda? PROVOCAÇÃO Olhando assim para mim, parece até que me amava. [leia o prefácio aos Interditos] ESTILO [p/ Cacaso] Foi um verso que desviou do poema. MATÉRIA E FORMA Prefiro os versos em parzinho. Não quero um verso assim solteiro. PERDAS E DANOS Uma cerveja, por favor: meu amor não desce a seco. Foi em uma brochurinha que encontrei os poemas que agora (e de pouco em pouco) trago a público. Do autor não tenho grande notícia, apenas que era jovem e, como jovem, pouco vivido nas histórias de amor que, entretanto, é seu tema. Num poema, nada aparece ao acaso. Quem os escreve, supomos que escolheu bem as palavras, que considerou cada uma delas antes de lançá-las no papel. As imagens que o poema mobiliza, também: foi o poeta quem as desenhou. A medida em que o poeta de primeiros versos vá tomando consciência das escolhas que faz (pois às vezes serão escolhas mais ou menos conscientes, mais ou menos inconscientes), bem como da escolha das imagens que desenha, vai possibilitando a si mesmo maior domínio da linguagem, como de si mesmo. Ao crítico, pouco importa se o poeta pensou tudo aquilo que ele encontra no poema. É o crítico que nos chama a atenção para as várias leituras possíveis, ainda quando o poema é tão somente um rascunho, sejam pelos versos demasiadamente improvisados ou pelos desenhos apenas em rabisco. O poeta ingênuo pensa que os versos saem como por inspiração. O crítico sabe que um poema, se inspirado ou não, requer trabalho, reflexão e escolhas. Se um arranca da subjetividade uns versos, o outro encontra neles a objetivação do que se passava na subjetividade. De algumas poucas palavras me valho aqui pois para tentar posicionar o leitor quando da leitura desses poeminhas, todos eles bastante econômicos nas palavras, curtíssimos, muitos de apenas dois ou três versos, sem rima necessária, tampouco métrica, versos livres como bem comporta a juventude do autor. São poeminhas que lembram a ‘fórmula da anedota’. Por vezes é por um mero trocadilho – os melhores, são de efeito preciso, pela interversão que o verso causa, embora o conjunto dos poemas seja irregular neste efeito, o que é desculpável, obviamente, pela mocidade do autor. Também pela interversão vem a ironia, da qual o autor tira algum proveito. Esta pequena antologia vem sob o nome de Interditos, que nos dá um pouco o tom da coisa. “Amores ditos entre dois”, mas também e mais propriamente “amores interditados” – o que por si só já é uma ironia. Amores que por algum motivo qualquer não se realizam, ou foi exatamente por falta de motivo é que não se realizam. Num caso, o que move leva à direção diversa – e “diverte”; no outro, não há movimento que faça vingar o desejo que, não obstante, pulsa. Não esperem, pois, poemas de amor cheios de fantasias que o adornem, nem alegres versos para citações de felicitação. Pelo contrário, os versos são singelos, tensos e mesmo de uma tristeza doída, causada pelos desencontros que a experiência amorosa pode proporcionar. Talvez o leitor se reconheça nos versos – ou talvez fique condoído do seu autor, quando se tem em vista de que é exatamente disto que se trata, uma relação a dois que não se cumpriu. Contudo, tudo isto nos será insondável: não saberemos ao certo nem como, nem porque das coisas não terem chegado a bom termo, pois um poema não é uma reportagem. No entanto, nestes desencontros, poderíamos imaginar, em vista das circunstâncias históricas em que vivemos, que este “outro interditado” a que os versos miram não seja necessariamente “alguém”, mas um “certo algo”, desejável por si mesmo, como a “transformação da ordem vigente no mundo”, a “liberdade”, a “revolução”, seja lá o que for, que se espera sem esperanças, pois parece demasiadamente afastada do horizonte histórico em que se nos meteram nestes tempos bicudos: TEMPOS BICUDOS Minha esperança já tem nome de saudade... Lidos assim, os versos falam de nosso tempo de desesperança, de perspectivas históricas ralas e apequenadas – traduzidas nas relações interpessoais ou contaminando-as. O que poderia ser lido como particular (“as desventuras do seu autor”) ganha contornos de algo mais geral e, porque não dizê-lo, universal: “o amor que não realizamos, que não se realiza e que não nos deixam realizar”, e que ficou na saudade. Um poema carrega em si a suas circunstâncias. Com efeito, a se pensar em um jovem, é uma nostalgia do tempo não vivido – outro tempo em que se cria na “revolução” ou o que o valha, quando se cria que o mundo estava em vias de mudança. Penso como caso exemplar o ano de 1968 – e tudo o que ele representou para a mocidade da época, e o que de 68 ficou como mito. Uma explosão de desejo, e que o “amor” – agora, como uma potência de fazer e criar, como a pulsão erótica de que Freud concebia – movia e transformava, até que foi censurado, aprisionado, privatizado: um “amor privado”. Essas linhas sugerem pois uma outra leitura dos poemas – não o amor como questão privada, particular, mas que se inscreve num espaço público. É tanta a interdição que são raras as vezes que o amor é “nomeado” – um amor sem nome, e porque sem nome, também sem gênero: GRAMÁTICAS O meu amor não concorda em gênero, número e grau. Pode-se imaginar uma correlação entre as duas leituras: foi também nos anos de rebeldia juvenil, ou, para ser mais exato, na recusa dos jovens a assumir os modos de vida do que é velho e ao sabor das convenções sociais e tradicionais. No rasto desta recusa veio a chamada “revolução sexual”, o movimento de emancipação das mulheres e de visibilidade e reconhecimento das outras orientações e opções sexuais, que desenhavam assim um outro mundo possível, em que o desejo fosse desinterditado. Admitamos contudo que não é sempre esse o tom dos versos; há outros que sugerem um “outro interditado” mais definido – mais particular, portanto; com efeito, a experiência vivida que se soma (ou somatiza) a esta impressão (objetiva) de um mundo ressentido, em que o amor e o desejo não chegam a bom termo. O leitor poderá, deste modo, se aproximar mais do tema e se apropriar dele, mas afastando-se do seu autor que, anônimo e oculto, interdita-se a si mesmo, como mais uma estratégia diversionista. Ironia de quem se revela ao ocultar-se, se esconde ao revelar-se: FIM DE PAPO Adoro os mistérios deste mundo. Então, emudeço. E fim de papo. 2月23日
Há quem leia nesse poema de João Cabral a expressão do Lógos de Heráclito: “não é a mim que deves ouvir, senão o Lógos” – traduzível por Discurso, assim, com D maiúsculo. O que dizemos – os discursos, d minúsculo – são poças estancadas desse rio, que não cessa de correr, discorrer. Encontros da poesia com a Filosofia. Uma e outra buscam encontrar a natureza das coisas – “A natureza ama ocultar-se”, disse Heráclito; oculta-se e manifesta-se em um mesmo movimento, ao mesmo tempo, em que discorre, escorre e escapa. É um tal de diz-desdiz… foi um rio que passou em minha vida… 1月3日 A última postagem rendeu vários comentários, inclusive de ex-alunos meus. Foi então que eu lembrei de um outro texto, guardado aqui entre os arquivos do computador, um texto que já usei inclusive em sala de aula, que trata da diferença entre desejo e vontade. É difícil mesmo lidar com nossos desejos – que são paixões. Mas eles estão aí, em nós. No entanto, esta é uma outra leitura, diferente daquela da última postagem. Posso dizer que eu mesmo me via às voltas com meus próprios desejos, tentando aprender a lidar com eles. A questão, a que retornaremos aqui, é a da “moral”, que é outra força que opera em nós. Para quem lembrar do Doutor Freud, estamos falando dos desejos enquanto as forças do Id; a moral, enquanto a pressão do Superego; e a vontade, como expressão do Ego. Nós confundimos o que é o desejo e o que é a vontade: usamos uma palavra e a outra para dizer a mesma coisa. Mas não é assim que é. Repare: nós não escolhemos nosso desejo. Ele surge, sabe-se lá de onde é que ele vem, e toma conta de nós. O desejo é assim. É um afeto, porque o desejo nos afeta, chega sem pedir licença, nos invade. Não é assim que é? O desejo é uma paixão. E paixão, não é só quando estamos apaixonados, não. Os apaixonados são afetados por uma paixão, a paixão amorosa, a paixão romântica… Mas o ódio e o medo também são paixões. Nós é que nos acostumamos a chamar apenas o nosso amor de paixão, o que é muito errado. Toda paixão é um afeto. São todos do mesmo jeito: o amor e o ódio, o medo, e o desejo, porque nos afetam, chegam sem pedir licença. Mas a vontade, não. Ela não é um afeto: ela é uma escolha. É quando, antes de agir, paramos para pensar e medir as conseqüências de nossos atos. A vontade é acompanhada da razão, que é a capacidade, que apenas nós humanos temos, de parar e pensar, calcular, medir conseqüências, e só então escolher. Se agimos apenas movidos por nossos desejos, não somos diferentes de qualquer animal, que também desejam, agem por instintos, por impulsos. Quando agimos apenas movidos pelo desejo e pelas paixões, não há escolha possível. E desejamos coisas que até consideramos serem contra a moral. O desejo não tem moral. No entanto, de nós, humanos, se espera a capacidade de frear um tanto nosso desejo, nossas paixões, tudo o quanto nos afete – para que possamos parar, pensar, escolher e agir. É assim que é. É nesta escolha que reside a moralidade. A vontade é o eixo em torno do qual gira a moral. 12月31日 Um dia depois do outro. Considerando assim, a virada de ano não tem nada de especial. “Passar de ano”, de 31 de dezembro a 1º de janeiro. Um ano depois do outro. – Mas não é só isso. Os finais de ano ensejam uma avaliação do ano que se encerra e a proximidade de um novo ano traz consigo alguma esperança – ou seja, o simples desejo de que as coisas sejam melhores no próximo ano, que ele traga boas novas. Um dia depois do outro. Não há nada de mágico nas viradas de ano. Não é sequer razoável que pensemos que por si só a passagem de ano traga as mudanças que desejamos, sobretudo se pesarmos bem a avaliação do ano que passou e as perspectivas e desdobramentos que ele nos apresenta, como um desenrolar das circunstâncias tão adversas em que vivemos. No entanto, deixemos um pouco a razão de lado e concentremo-nos em nossos desejos. Pois o desejo é uma força poderosa – ela não faz mágicas, não. Porém, ele é forte à medida em que nos move e nos faz mover. É esta força que reconhecemos pelo nome de esperança. Não é o ano-novo que nos traz boas novas, mas o modo com que lidamos com nossos desejos, de como investiremos em nossas ações para que eles se realizem, um dia depois do outro. Esperar que, como em um passe de mágica, o ano-novo seja também um ano-bom é entregar-se a emoções um tanto ingênuas. Antes, o ano-bom depende de um esforço decidido e engajado, ou então é contar com os desígnios da sorte. O desejo é uma força poderosa, nos move. Contudo, não temos controle sobre nossos desejos – isto é, a razão não os controla. Por isso identificamos nosso desejo ao que há de irracional, às paixões – ou páthos, na língua grega. A etimologia nos dá a pensar: esperar – esta esperança que se confunde com a sorte e com a magia – tem a ver com um estado passivo e de uma “paciência passiva” (perdoem-me a redundância), oposto ao estado de quem age. E assim nos entregamos ao clima emotivo da virada de ano que a muitos contamina (como doença, uma patologia). O desejo, no entanto, é parte de nós – e saudável, quando aprendemos a lidar com ele, com moderação, prudência, como nos ensina Aristóteles. Saudável quando desperta em nós a força para uma ação deliberada, em vista de uma finalidade: a felicidade, que não deve ser interpretada como a mera realização de nossos desejos, e do prazer que disto podemos esperar, mas da atuação daquilo que em nós há de mais humano. Concentremo-nos em nossos desejos para o ano-novo. Afinal, o que queremos? E ao querer, o que fazer? Que este querer seja a força motora para realização de nossos projetos. Não há mágica, nem sorte – ou, se há, nem sempre poderemos contar com elas. O desejo de um bom-ano-novo transforma-se em força para a ação – ou práxis, na língua grega. Feliz práxis nova! Um dia após o outro.
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